Por que os gêmeos podem contribuir para a ciência?

 

Você se lembra de expressões corriqueiras como “Quando você envelhecer será igual a sua mãe!”, “Puxou o pai!”, ou “Esses irmãos são iguaizinhos!”. Essas percepções populares são muitas vezes reais e vão muito além da aparência física. O “gênio forte”, o gosto pelos estudos, a aptidão artística, todas essas características são apresentadas como semelhanças entre pais e filhos e podem ser devidas em grande parte ao ambiente compartilhado entre as pessoas. A convivência da filha com a mãe pode tornar os hábitos semelhantes, e de forma similar isso pode acontecer com irmãos. Ou as semelhanças podem ser apenas coincidências!

Estudos científicos com gêmeos tem demonstrado que situações como as descritas acima podem não ser coincidências, nem serem somente devidas ao fato de compartilhar o mesmo ambiente (mesma casa, rotina, e circunstâncias de vida) que nos torna muitas vezes parecidos com nossos pais. O ambiente é importante, mas a herança genética* é muitas vezes a responsável pelo desenvolvimento dessas semelhanças, e também para o desenvolvimento de doenças.

 

Mas, quais semelhanças entre pais e filhos são devidas à genética? E qual doenças podem se desenvolver por causa de uma herança genética?

A resposta dessas perguntas é facilitada pelo desenvolvimento de estudos com gêmeos, e vem daí a importância das características particulares desses indivíduos para a ciência. A lógica geral desses estudos é que os gêmeos chamados de Monozigóticos compartilham da mesma composição genética, e os gêmeos chamados Dizigóticos são geneticamente semelhantes a irmãos normais e compartilham parte de sua composição genética, metade recebida da mãe e metade do pai. Quando comparamos gêmeos monozigóticos e dizigóticos com uma mesma característica, a observação de uma maior semelhança na ocorrência dessa característica ente irmãos monozigóticos nos dá pistas de que a genética pode estar influenciando o desenvolvimento, ou expressão, da característica em estudo.

 

 

Por causa de estudos realizados com o método descrito acima, chamado de estudo clássico com gêmeos, sabemos hoje que traços de personalidade como agressividade e isolamento na infância, depressão e ansiedade, são características influenciadas pela genética. Alguns fatores que aumentam o risco de desenvolver doenças cardiovasculares também são geneticamente determinados, como os níveis de colesterol e a relação entre o peso e a altura corporal (índice de massa corporal – IMC). Isso significa que quando herdamos o gene que determina tal característica, teremos maior suscetibilidade para desenvolvê-la. O ambiente será responsável pela outra parte determinante do desenvolvimento, ou não, da característica em questão.

Observar tais semelhanças genéticas na população geral é difícil por causa do que chamamos na ciência de “ruído”. Na população geral, muitas variáveis estão influenciando a característica em estudo ao mesmo tempo, por exemplo, idade, nível de atividade física, alimentação, peso, renda, local de moradia, dentre outras. Além disso, a parte devida à genética está diluída devido à diversidade dos indivíduos.

Quando estudamos gêmeos, obtemos um nível mais controlável de semelhança genética, além do fato de que os gêmeos possuem idades semelhantes e compartilham parcialmente do mesmo ambiente – ao menos na infância. Por causa dessas características especiais, pesquisas com gêmeos permitem aprimorar o conhecimento científico sobre diversas doenças, aumentando nossas chances de preveni-las e tratá-las!

Glossário

Herança genética: é a informação que determina como nosso organismos se desenvolverá que é recebida dos nossos pais quando o espermatozoide paterno se une ao óvulo materno. Metade das informações genéticas de cada progenitor se unem para formar o genoma da célula embrionária resultante. Assim, esta contém informações genéticas maternas e paternas.